Registo de dados · Temperatura e humidade
Trocar o sensor de humidade pode deixar marca na série: o que encontrou um estudo com 55 estações do Reino Unido
Um estudo com 55 estações do Reino Unido detetou nas séries de humidade mudanças de técnica de medição; numa estação, outras deteções mais pequenas foram relacionadas com substituições de rotina de sensores. O que permite concluir, o que não permite e o que convém anotar na sua própria série.

Quem mantém uma série de humidade relativa durante anos, numa estufa, num armazém, num museu ou numa estação meteorológica, acaba por trocar o sensor: porque envelhece, porque avaria ou porque chegou a altura de o substituir. A pergunta prática é se essa troca fica escrita nos dados e se, sem um registo de manutenção, é possível saber depois quando aconteceu. Um estudo publicado em dezembro de 2025 por investigadores do Laboratório Nacional de Física do Reino Unido (NPL) e do Met Office dá uma resposta parcial, com limites que convém conhecer antes de a transpor para o seu ponto de medição.
A pergunta do estudo
Valerie N. Livina, Kate Willett e Stephanie Bell perguntaram se uma técnica estatística pensada para antecipar transições bruscas em sistemas naturais, a análise de pontos de viragem (tipping point analysis), consegue detetar mudanças de instrumento em séries de humidade, incluindo as que não ficaram documentadas. Partem de um facto que recordam no resumo: as tecnologias dos higrómetros mudaram ao longo dos anos e, em alguns casos, têm sido propensas a deriva por envelhecimento, condensação ou contaminação em serviço. Na introdução dão como exemplo de mudança de tecnologia a passagem de psicrómetro para higrómetro eletrónico. Os autores apresentam o trabalho como a primeira aplicação desta técnica com esse fim.
Como foi feito
O estudo analisa o ponto de orvalho e a humidade relativa de 55 estações de observação do Reino Unido, com dados do HadISD, um conjunto de dados horários de superfície que nestas estações abrange várias décadas. Partiu-se de 56 estações, foram eliminados os dados anteriores à maior lacuna de cada série e uma ficou demasiado curta. A humidade relativa analisada não é uma leitura direta: é obtida a partir do ponto de orvalho e da temperatura do HadISD, com uma pressão à superfície climatológica retirada da reanálise ERA5 do ECMWF.
O método olha para a textura da série mais do que para o seu valor médio. Depois de retirar a tendência global e a sazonalidade, calcula em janelas móveis, de 10 % do comprimento da série, a autocorrelação de um passo (quanto depende, em média, cada valor do anterior), o indicador principal do estudo. A seguir localiza as mudanças com um método bayesiano de deteção de pontos de mudança e só considera significativas as que ultrapassam uma probabilidade de 0,8.
Porque é que uma mudança de instrumento alteraria essa textura? Segundo os autores, dois troços da mesma série podem ter resolução efetiva ou ruído diferentes, e passar a amostrar com mais frequência (no exemplo que dão, de algumas leituras por dia para registos de minuto a minuto) produziria de imediato autocorrelações mais fortes.
O que foi observado
Na estação de Bingley surgiram duas mudanças estatisticamente significativas, em 1994 e em 1998, anos em que houve passagem de observação manual para automática e também uma mudança do aeródromo local. Outras deteções mais pequenas, em 2007, 2011 e 2018, foram relacionadas, segundo a informação sobre as mudanças de instrumento conhecidas, com substituições de rotina de sensores nessa estação. Em Camborne e em Carlisle, as duas análises mostraram deteções fortes na década de 1990. O artigo recorda, em termos gerais, que nas décadas de 1980 e 1990 houve substituições de instrumentos analógicos por instrumentos digitais.
As deteções foram depois confirmadas pelos registos disponíveis de mudanças de instrumento em algumas das estações. Os autores sublinham que os efeitos observados não são transições climáticas, mas sim transições críticas de curta duração, e propõem que estas técnicas poderiam servir para vigiar o estado de redes de sensores, de forma automática e até em tempo real, e para identificar mudanças de instrumento quando falta a documentação.
O que o estudo não permite dizer
- Não diz quanto. O método indica quando muda o comportamento da série, não quanto se desloca a humidade: o artigo não dá magnitudes em pontos de humidade relativa nem em graus de ponto de orvalho, pelo que, por si só, não basta para corrigir uma série.
- Não distingue causas. Os autores escrevem que não tentaram distinguir entre tipos de problema do sensor. Em Bingley, além disso, a mudança de técnica e a do meio envolvente coincidem no tempo.
- A data é aproximada. Segundo os autores, o momento de uma mudança pode ser identificado, se necessário, com uma incerteza pequena, de várias semanas; ainda assim, isso conta quando se cruza com um registo de manutenção.
- Equipamento e dados. São higrómetros de uma rede nacional ao longo de décadas, com passagem de instrumentos analógicos para digitais e de observação manual para automática, não registadores autónomos num armazém ou numa estufa. E a humidade relativa é calculada, não medida.
- Região e comprimento da série. São estações do Reino Unido. O estudo não prova se o método se comporta da mesma forma em climas mais secos ou com mais contraste sazonal, como grande parte da Península, nem fixa um comprimento mínimo de série: com janelas de 10 % sobre séries de décadas, não se sabe o que daria numa série de um ou dois anos.
O que isto muda numa decisão de medição
Um só estudo não faz consenso, e este trata séries de décadas de uma rede oficial. Ainda assim, o que foi observado nestas estações apoia algumas decisões simples para quem regista humidade:
- Anote cada troca de sensor: data e hora, modelo e número de série do que sai e do que entra, e o motivo. Neste estudo, as deteções só puderam ser confirmadas onde existia um registo de mudanças; sem ele, um salto na série fica sem explicação.
- Anote também o que muda à volta e na configuração. Em Bingley coincidiram a passagem para observação automática e uma mudança do aeródromo, e os autores referem que passar a uma frequência de amostragem maior produziria de imediato autocorrelações mais fortes. Mudar o intervalo de registo a meio da série é uma mudança de método, mesmo que o sensor seja o mesmo.
- Antes de ler uma tendência, cruze as datas. Se a sua série de humidade muda de comportamento, verifique se coincide com uma substituição, uma recalibração ou uma mudança de local do sensor. É a mesma lógica que aplicámos aos recordes de temperatura nesta outra peça sobre séries curtas e metadados.
- Não confunda deteção com correção. Saber que algo mudou não diz quanto. Para o estimar é preciso comparar com uma referência, coisa que este estudo não faz.
Referências
- Livina, V. N., Willett, K. e Bell, S. (2025). Tipping point analysis helps identify sensor phenomena in humidity data. Geoscientific Instrumentation, Methods and Data Systems, 14, 541-564. DOI: 10.5194/gi-14-541-2025. Texto integral no sítio da revista (consultado a 28 de outubro de 2026).
Seleção comercial da EIC Controls
O sensor inteligente de temperatura e humidade relativa S-THC-M002 funciona com os registadores de dados Onset que aceitam sensores inteligentes e, segundo a sua ficha, guarda os seus próprios parâmetros e comunica a configuração ao registador sem programação. Para a humidade relativa, a ficha declara ±2,5 % entre 10 % e 90 % (típico), até um máximo de ±3,5 % com histerese a 25 °C, e uma deriva típica inferior a 1 % por ano, um dado útil para planear quando o verificar ou substituir e para o deixar anotado. Ficam por dimensionar o registador ou a estação, o protetor contra a radiação solar dentro do qual a ficha recomenda montá-lo e o registo de manutenção.
Instrumentos para esta aplicação

LI-COR (HOBO, InTemp, LI-COR) · S-THC-M002
Sensor Inteligente de Temperatura/Humidade Relativa (2m de cabo)
O Sensor Inteligente de Temperatura/Humidade Relativa foi concebido para funcionar com todos os registadores de dados Onset que aceitam sensores inteligentes. Todos os parâmetros do sensor são armazenados dentro do sensor inteligente, que comunica…



