Meteorologia · Agricultura e solo
A temperatura chega para estimar a ET0? O que encontrou um estudo com 45 estações agroclimáticas de Aragão
Em 45 estações da rede SIAR em Aragão (2004-2024), a ET0 calculada só com a temperatura subiu em 36, enquanto a de Penman-Monteith não teve tendência significativa em 33 e desceu em 12. O que este estudo permite concluir sobre as variáveis a medir, e o que não permite.

Muitas decisões de rega partem da evapotranspiração de referência (ET0). Quando na parcela só existe um termómetro, é tentador calculá-la com uma fórmula que usa apenas a temperatura e, com temperaturas cada vez mais altas, esperar que a ET0 suba de ano para ano. Um estudo publicado em 2026 na revista Irrigation Science pôs essa intuição à prova com dados diários de 2004 a 2024 de estações agroclimáticas de Aragão. Neste estudo, a resposta dependeu das variáveis que entraram no cálculo.
A pergunta do estudo
Nery Zapata, Eva T. Medina e E. Playán quiseram saber se o aquecimento observado em Aragão se traduz em mais procura evaporativa e em mais água para as culturas. Para isso compararam duas formas de calcular a ET0:
- Hargreaves-Samani, que só precisa da temperatura média, da máxima e da mínima, mais a radiação extraterrestre, calculada a partir da latitude e do dia do ano.
- Penman-Monteith da FAO (FAO-56), que precisa também da humidade do ar, da radiação e da velocidade do vento a 2 m.
Como foi feito
- Estações: 49 estações automáticas da rede SIAR em Aragão (22 em Huesca, 21 em Saragoça e 6 em Teruel). Registam médias semi-horárias e diárias de temperatura e humidade relativa do ar, velocidade e direção do vento, radiação solar e precipitação. A rede foi criada em 1998 pelo Ministério da Agricultura espanhol com as comunidades autónomas, para estimar as necessidades de água das culturas nas zonas regadas.
- Depuração: foram excluídos os anos com mais de cinco dias seguidos sem dados e mantidas as estações com pelo menos 17 anos quase completos. Ficaram 45, com séries de 17 a 21 anos. As falhas restantes foram preenchidas com dados da estação mais próxima.
- Análise: tendências anuais, sazonais e mensais com o teste de Mann-Kendall e o declive de Sen, com um limiar de significância de p < 0,05; aqui citam-se as anuais. Além disso, modelos de graus-dia para as fases do milho e de várias fruteiras, e a evapotranspiração dessas culturas (ETc).
O que foi observado
A temperatura subiu quase em todo o lado. A média anual aumentou de forma significativa em 43 das 45 estações, a um ritmo médio de 0,08 °C por ano; a máxima, em 44 (0,10 °C por ano), e a mínima, em 33 (0,06 °C por ano).
Com os mesmos dados, as duas fórmulas deram resultados diferentes:
- A ET0 de Hargreaves-Samani subiu em 36 das 45 estações, com um declive médio de 11,68 mm por ano nessas 36 (entre 7,48 e 17,37 mm por ano).
- A ET0 de Penman-Monteith não teve tendência significativa em 33 estações e desceu nas outras 12, a um ritmo médio de 6,08 mm por ano nessas 12 (entre 2,09 e 10,38 mm por ano). Não subiu de forma significativa em nenhuma.
A diferença está nas variáveis que a fórmula de temperatura não usa. O vento médio desceu de forma significativa em 34 estações (0,02 m/s por ano, em média), a humidade relativa subiu em 21 (0,32 % por ano) e a radiação solar anual desceu em 7 (22,13 MJ/m² por ano). A precipitação anual não mostrou tendência significativa, exceto um ligeiro aumento numa estação. Segundo os autores, essas mudanças na radiação, no vento e na humidade compensaram a subida da temperatura e dissociaram a evapotranspiração do aquecimento.
Nas culturas passou-se algo semelhante. As fases encurtaram (no milho de ciclo longo, a fase III reduziu-se de forma significativa em 18 estações e a fase IV em 20), e essa antecipação estabilizou a ETc acumulada da campanha. A conclusão dos autores é que a subida da temperatura, por si só, não implica necessariamente mais procura evaporativa nem mais consumo de água pelas culturas.
Até onde se pode transferir
- Região, clima e culturas. São estações das zonas regadas de Aragão, de clima mediterrânico ou mediterrânico continental, e as fases e a ETc só foram calculadas para o milho e várias fruteiras. Noutro clima, as tendências do vento, da humidade e da radiação podem ser outras, e com elas a distância entre as duas fórmulas.
- Escala. São tendências anuais, sazonais e mensais entre 2004 e 2024, não valores diários. O estudo não diz quanto erra a fórmula de temperatura num dia de rega concreto.
- Equipamento. O artigo não detalha modelos de sensores, alturas nem calibrações. Os autores avisam que os resultados dependem, em última análise, da exatidão e da constância da manutenção das estações.
- Método. Hargreaves-Samani foi aplicada com o seu coeficiente original de 0,0023. A FAO-56 pede que essa fórmula seja verificada em cada região nova face a Penman-Monteith e calibrada se for necessário.
Um único estudo regional não chega para transferir as suas tendências para o resto de Espanha: neste estudo, em Aragão e neste período, a temperatura sozinha não descrevia bem a evolução da procura evaporativa.
O que muda numa decisão de medição
- Se a ET0 vai orientar a rega ou o planeamento da água, meça as quatro variáveis. A FAO-56 indica que a equação de Penman-Monteith precisa das temperaturas máxima e mínima, da pressão real de vapor, da radiação líquida e do vento a 2 m. As estações deste estudo medem para isso temperatura e humidade relativa do ar, vento e radiação solar. Neste estudo, ficar só com a temperatura teria apontado uma subida da ET0 em 36 estações, quando a equação completa não a mostrou em nenhuma.
- Se hoje só tem temperatura, verifique a fórmula antes de confiar nela. A FAO-56 pede que a equação de Hargreaves seja comparada, em cada região nova, com Penman-Monteith em estações onde se meçam essas quatro variáveis, e admite calibrá-la com coeficientes mensais ou anuais. Também avisa que tende a subestimar com vento forte (u2 > 3 m/s) e a sobrestimar com humidade relativa alta. A rede SIAR espanhola publica diariamente a ET0 de Penman-Monteith das suas estações, que pode servir de referência para essa comparação.
- Meça o vento a 2 m ou corrija-o. A FAO-56 pede a velocidade do vento a 2 m acima da superfície. Se o anemómetro estiver a outra altura, propõe uma correção com um perfil logarítmico do vento, para medições sobre uma superfície de relva baixa.
- Registe a manutenção e cada alteração. Entre as tendências que compensaram o calor neste estudo houve uma descida média do vento de 0,02 m/s por ano (em 34 estações) e uma subida média da humidade relativa de 0,32 % por ano (em 21). Para conseguir ler uma tendência na sua própria série, deixe escrita cada alteração de sensor, de altura, de calibração e da envolvente do ponto de medição.
Para escolher o sensor de radiação, veja também PAR ou radiação solar global? Como escolher o sensor de luz.
Referências
- Zapata, N.; Medina, E. T.; Playán, E. (2026). Meteorological drivers modulate evapotranspiration trends under climate warming in Northeastern Spain. Irrigation Science, 44(4), 81. DOI: 10.1007/s00271-026-01117-1. Texto integral (licença CC BY 4.0): https://link.springer.com/article/10.1007/s00271-026-01117-1. Consultado a 7 de outubro de 2026.
- Crossref (2026). Registo de metadados do DOI 10.1007/s00271-026-01117-1 (sem marcas de correção nem de retratação na data de consulta). https://api.crossref.org/v1/works/10.1007/s00271-026-01117-1. Consultado a 7 de outubro de 2026.
- Allen, R. G.; Pereira, L. S.; Raes, D.; Smith, M. (1998). Crop evapotranspiration: Guidelines for computing crop water requirements. FAO Irrigation and Drainage Paper 56, capítulo 3: Meteorological data. https://www.fao.org/4/x0490e/x0490e07.htm. Consultado a 7 de outubro de 2026.
Seleção comercial da EIC Controls
O Sensor Inteligente de Radiação Solar (Piranómetro de Silício) (S-LIB-M003) mede, segundo a sua ficha, a radiação solar de 0 a 1280 W/m², uma das quatro variáveis que as estações deste estudo medem para a equação de Penman-Monteith. Numa estação que já regista temperatura, humidade e vento, é a variável que falta para calcular a ET0 com a equação completa em vez de uma fórmula de temperatura. Ficam por dimensionar um registador compatível, que a ficha indica das famílias H21, H22 e U30, os sensores de temperatura, humidade e vento se ainda não existirem, o suporte e o nível que a ficha recomenda, e o ponto de instalação.
Instrumentos para esta aplicação

LI-COR (HOBO, InTemp, LI-COR) · S-LIB-M003
Sensor Inteligente de Radiação Solar (Piranómetro de Silício)
Meça eficazmente os níveis de luz com este sensor piranómetro de silício. O Sensor Inteligente de Radiação Solar permite uma rápida implementação. Uma vez que os registadores de dados da HOBO reconhecem este sensor, não é necessária qualquer programação ou…



